História de Peroviseu


Do Meal Redondo ao Penedo Frade

 Peroviseu, a aldeia nascida há séculos no sopé da Serra do Meal Redondo, por baixo do «PENEDO FRADE».

Situada a 12 quilómetros do Fundão e a 16 da Covilhã, já na estrada que conduz a Penamacor, a sua origem remonta a séculos e da sua história faz parte o nome de Pêro da Covilhã, de quem se presume ter-lhe tomado o nome. De facto, é convicção de que Pêro da Covilhã (também de Viseu) aqui viveu algum tempo antes de partir em busca de Prestes João. Daí ter ficado este ponto de referência: - Sítio do Pêro de Viseu, mais tarde Peroviseu até aos dias de hoje.

O local primitivo terá sido na Arremacha ou S. Marcos, onde ainda existe uma capela e em cujo cabeço o arado vai trazendo à superfície fragmentos de tijolo que o demonstram. Porém, uma praga de formigas obrigou os habitantes a mudarem-se para o Cabeço da Malha, sendo ali que a povoação se desenvolveu entre fraguedos e onde mais tarde foi erguida a Igreja Matriz, templo magnifico de talha riquíssima, que enche os olhos de quem o visita.

Ao longo da sua existência, aqui foram ficando marcas de outras civilizações, nomeadamente a romana. As «tumbas» dos mouros e as calçadas romanas de S. Marcos e do Vale Feitoso constituem prova indesmentível. A ponte romana sobre a ribeira da Meimoa é uma obra de arte que tem vencido as vicissitudes do tempo e os maus tratos do homem, permanecendo um testemunho vivo dessa civilização. Carece, no entanto, da atenção das entidades a quem esta confiada a preservação dos monumentos históricos.

Em suma, uma terra onde estão patentes as marcas da sua longevidade. Uma terra que, como muitas outras aldeias do interior, foi levantada pedra-a-pedra e foi ficando com o cunho do atraso que moldou a humildade e um certo conformismo da sua gente.
 

Joaquim Pereira Catarro
in Boletim Municipal

 


Referência a Peroviseu no livro:

"O Concelho do Fundão através das memórias paroquiais de 1758"

 

Peroviseu, uma freguesia de conteúdo histórico bem evidenciado, a começar logo pelo seu topónimo, que indica claramente um importante personagem dos primeiros tempos da monarquia, que terá sido porventura o fundador da povoação - Pero ou Pedro, originário de Viseu. Já existia com este nome e certamente com alguma importância (pois havia nela uma igreja), em 1620, ano em que o bispo da Guarda procedeu a uma divisão das igrejas e rendas da diocese. Essa igreja era da invocação de S.ta Maria e foi cotada em 1320 com uma taxa de 50 libras, o mesmo que a de S. Martinho do Fundão. Por conseguinte, deve ser ponto assente que a aldeia de Pero (de) Viseu tenha começado a ser (re)povoada ao longo da primeira metade do século XIII, talvez ainda no primeiro quartel.

Povoamento ou repovoamento? É fora de dúvida que o seu território já havia sido habitado noutras eras e por outras gentes. Há vestígios vagos de ocupação pré-romana ("castro")1 num cabeço da vertente Sul de serra chamada de Meal Redondo, à cota de 543 m, a cavaleiro de Peroviseu; e há testemunhos da civilização romana, estes consistentes e diversificados, em diversos pontos: no Museu do Fundão podem observar-se fragmentos de cerâmica de construção provenientes da estação romana da Romaxa e uma inscrição latina, que embora sendo uma cópia tardia, pode ser considerada a "jóia" do Museu, por ser única do género em museus portugueses. Trata-se, neste caso de um padrão (terminus augustalis)2, datável do ano 4/5 d. C., que demarcava o limite territorial entre duas civitates: a dos Igeditani (para S e SE, com capital em Idanha-a-Velha) e a dos Lancienses (para NE e N, cuja sede ainda se discute). Estava encastrado na fachada de residência paroquial de Peroviseu a servir de apoio a uma janela e foi encontrado em Agosto de 1971 pelo Sr. P. Luis Leitão quando procedia à poda de uma arvore no seu quintal. Geralmente são também dadas como romanas a "ponte de Peroviseu" (ou dos Moinhos) e as calçadas de S. Marcos, Ferrarias e Lameira do Forno, mas, ao menos a ponte, no todo ou em parte, deverá ser atribuída a outra engenharia 3.

Em virtude deste vestígios romanos reza a tradição que o assento primitivo da aldeia era no sitio da Romaxa, próximo da capela vetusta de S. Marcos, local que foi abandonado precipitadamente devido a uma praga de formigas que comiam os olhos às crianças. Os primitivos perovisenses ter-se-iam voltado então para as faldas do Cabeço da Malha, onde reconstituíram os seus habitáculos. Com o devido respeito pela tradição, que por via de regra transporta alguns resquícios de verdade mas de mistura com muita fantasia, temos para nós que terá existido na Romaxa alguma pequena villa rustica - aliás o topónimo é bem sugestivo - mas que não foi além dos séculos IV ou V. Por não subsistirem na zona quaisquer indícios civilizacionais de suevo-visigodos e muçulmanos, deve ter-se seguido um hiato e, a comprovar-se este raciocínio, o repovoamento do século XIII assumiu o carácter de uma (nova) fundação.

Muito pouco se sabe da evolução de Peroviseu até à modernidade, o que mais valoriza a Memória paroquial que a seguir é apresentada e para a qual se chama a atenção do leitor pela a sua exemplaridade. Queremos tão só sublinhar a referência ao lugar de S. Pedro do Catrão, que hoje é parte integrante da freguesia de Vale de Prazeres, mas ao tempo e um tanto estranhamente era desta. O Catrão fora outrora um local estratégico, porque ponto de passagem obrigatório para quem se dirigia de Castelo Branco à Guarda e vice-versa. O prior de Peroviseu (em 1758), ainda o conheceu pelo nome de Estalagens do Catrão e sabe-se que a sua igreja ou capela de S. Pedro remontava pelo menos ao ano de 1320 e que esta foi sucedânea de algum edifício romano, pois nas suas imediações são ainda detectáveis bastantes resíduos desse tempo. Porque vicissitudes terá passado para aparecer ligado a Peroviseu 4 e não a outra paróquia mais próxima? Tantos meandros da "pequena história Local" por explorar...

 

Joaquim Candeias da Silva
in "O Concelho do Fundão através das memórias paroquiais de 1758"

 

(1) Este téminus apenas encontra paralelo no território nacional em mais três padrões, um deles muito semelhante surgido em Salvador(Penamacor), mas que sumiu. Chegou a supor-se que este tivesse no de Peroviseu uma cópia do mesmo original romano, mas são de facto dois textos distintos.

(2) Na toponímia persiste o topónimo Crasto/Quinta do Crasto

(3) Há noticia de ter sido edificada por volta de 1680, sob a direcção de Manuel Alvres da cunha, mestre de arquitectura de Viseu. (Segundo uma escritura de 15/XI/1680, registada no livro de notas do tabelião Manuel Monteiro, 50, fl. 39 v., Arquivo Distrital de Viseu)

(4) Uma tradição recolhida por J. Germano da Cunha (Apontamentos, p. 39) sustenta que a primitiva aldeia foi dizimada por uma epidemia e que 14 famílias de lá fugidas só em Peroviseu encontraram humanitário agasalho.


Resposta a um inquérito pelo

Prior Ignacio da Costa(1758)

 

  1. Este lugar de Pero Viseu fica na provincia da Beyra, Bispado e Comarca da Cidade da Guarda, Arciprestado da notavel villa de Covilham, termo da villa do Fundam e freguesia deste mesmo lugar de Pero Viseu.

  2. Sempre foy ele de Sua Magestade fidelissima, que Deos guarde.

  3. Tem cento e outenta e quatro vizinhos; tem quinhentas trinta e outo pessoas de confissam e communham, e cento e seis de confissam somente.

  4. Está situada nas faldas de hum monte ou serra, a qual lhe fica à parte do Norte, e desta terra a parte do Merodiano se discobrem as povoaçoins seguintes: a villa do Fundam, o lugar de Alcongosta, o lugar do Alcayde, que a qualquer destas pouco mais ou menos distaram duas legoas de craveira, que os naturais só contam huma.

  5. Tem termo seu, e tem mais um lugar, a que chamam os Valles de Pero Viseu, que tem vinte e seis vizinhos, sesenta e outo pessoas de confissam e communham, e dez de confissam somente.

  6. A parroquia está fora do lugar, se bem que dela às primeiras casas do lugar distaram sesenta passos. Já asima dise tinha o lugar dos Valles; tem mais um monte / a que chamam as Estalagens do Quatram, e dista desta freguesia duas legoas, mas deste lugar a este monte, de premeio, entram muitas freguesias, e de presente nam habita ninguem em este tal monte.

  7. Chama-se o orago Nossa Senhora da Consolaçam. Tem o altar-mor com a imagem da Nossa Senhora da Consolaçam, Sata Rita da parte do Evangelho e Santo Antonio da parte da Epistula, as imagens todas em vulto e estofadas; o altar coletral da parte do Evangelho de Nossa Senhora, imagem de vestir; da mesma parte outro altar das almas, com huma imagem de Christo na Cruz; da parte da Epistula o altar coletral do menino, imagem de vestir; e da mesma parte o altar de Sam Pedro, com imagens em vulto de Sam Pedro, estofado. Tem huma Irmandade das Almas.

  8. O parroco he Prior, o qual apresenta hum Morgado da mesma terra, a quem de presente chamam Diogo Dias Preto Machado e Cunha; renderá anno por anno cento e cincoenta mil reis.

  9. Nam tem Beneficiados

  10. Nam tem Conventos

  11. Nam tem Hospital

  12. Nam tem Casa de Misiricordia.

  13. Tem huma ermida de Santo Sebastião, dentro do lugar; e fora do lugar tem huma de Sam Marcos, e outra do Divino Espirito Santo, tem outra de Sam Bartholomeu dentro do predito lugar dos Valles, e todas estas pertencem ao Povo; tem outra de Sam Francisco Xavier, dentro deste povo, que he a capella do Morgado Diogo Dias Preto Machado e Cunha; tem outra no monte do Quatram asima declarado, que tem por orago o Apostolo Sam Pedro, que pertence e he obrigado a rreparar o parroco deste lugar de Pero Viseu.
  14. Nam acode a ellas romagem em tempo algum do anno; somente esta de Sam Francisco Xavier tem outra imagem de Sam Romam, adonde acode muita jente, por sim e sseos animais danados, e têm esperiencia e fé que, vindo-se oferecer ao S.or Sam Romam, inda que sejam mordidos de animais preados, nam terem perigo. E a capela de Sam Pedrodo Quatram, no seu dia, he obrigado o parroco deste lugar a hir ou mandar lá dizer huma missa e dar hum covado de pano pardilho e huma bola, que terá um alqueire de trigo;e dipois de missa, em hum tirreiro diante da capela, juogam a barra com huma pedra que terá hum quintal, e quem mais lonje a lança guanha a bola; e dipois disto entram a jugar as quedas, ou lutar homem com homem, braço a braço, e aquelle que a mais derruba ficando vencedor no terreiro, nam havendo mais quem queira jogar com elle; este ganha o covado de pano pardilho a esta funçam. Acode muita gente, huns a ver, outros a lutar, pois todos os que se prezam de valentes nam faltam, e têm vindo muitos de mais de outo legoas somente a lutar; e parece ser milagre do glorioso Apostolo Sam Pedro, que sendo todos jente tam rrustica, que os mais sam pastores, nam ha memoria que nesta funçam ouvese nunca huma disgracia.
  15. Frutos que recolhe em maior em mayor [sic] abundancia sam senteyo, azeite e vinho.
  16. Tem dois juizes, a que chamam juizes padanos, e o lugar dos Valles tem outro juiz da mesma qualidade, e todos sugei[tos] ao juiz de fora da villa do Fundam.
  17. Nam he Couto, nem cabeça de conselho.
  18. Nam tem havido nella sujeitos que deixasem memoria em que florescessem
  19. Nam tem feira.
  20. Nam tem correio, serve-se do da villa o Fundam, que dista desta terra quasi duas legoas.
  21. Dista da cidade da Guarda, capital deste Bispado, sete legoas, e da de Lisboa, capital deste Reyno, quarenta e duas legoas.
  22. Nam tem nemhuns previlegios, nem anteguidades.
  23. Nam tem fonte, nem lagoa de especial qualidade
  24. Nam he porto de mar.
  25. Nam he terra de murada.
  26. No terremoto de mil setecentos e cincoenta e cinco nam padeceu ruina alguma.
  27. Nam tem cousa alguma mais de que se possa dar rrelaçam.

 

Ao que se procura saber desta terra:

  1. Esta terra, que nem verdadeiramente he serra, porque inda quando nela neva primeiro nela se derrete a neve que no plano, toma o nome das terras por onde passa: nesta terra se chama a serra de Pero Viseu. Quem esta nesta terra fica-lhe a tal serra ao Norte, e de outra parte da serra fica o lugar de Ferro, rezam porque da outra parte chamam a serra de Ferro, mais asima ao Nascente a chamam a serra de Peraboa e a serra da Pedra Aguda, e abaxo ao poente chamam a serra de Alcaria.

  2. Terá uma legoa de comprido, e no mais largo hum quarto de legoa: prensepia por sima da Pedra Aguda, à vista do lugar de Peraboa, e finda ao pe do lugar de Alcaria.

  3. Nam tem braços.

  4. Nam nasce nella nemhum rio.

  5. Já disse, no prensipio dela está o lugar de Peraboa e no fim o de Alcaria; e de huma parte este de Peroviseu, e da outra o de Ferro.

  6. Nam tem fonte de agoa de propriedade alguma, antes que em toda a parte da serra lança bem pouca agoa.

  7. The o presente se nam tem nela descuberto minas de metais1, pedras ou outros minerais de estimaçam.

  8. Nam tem mais arvores que castanheiros e sobreiros, mas nam por toda ela, e nam sey tenha ervas medesinais mais que alecrim e ruda, e por toda a serra se semeia senteio.

  9. Nam tem mosteiros, nem igrejas.
  10. Neste sitio he mais ventosa que no prensipio dela e fim della.
  11. Nella pastam ovelhas e cabras, e cria coelhos, perdizes e raposas.
  12. Nam tem lagoa nem fojo.
  13. Nam tem propriades [sic], de que se possa fazer memoria.

 

Nam he ryo, mas ribeira

  1. Quasi um quarto de legoa distante desta terra corre huma ribeira, à qual chamam Meymoa. Nasce ao pe de um lugar a que chamam Meymam.

  2. Nasce em pequeno nascimento, e em muitas partes nem corre nas canicullas.

  3. Nesta ribeira se mete outra ribeyrinha, chamada o Anascer, a qual se mete nesta ao pe de hum lugar que chamam Escarigo; e ao pe do lugar da Meymoa outra a que chamam a ribeyra de Val de Lobo; e outra a que chamam dos Enxames, que tambem se mete nesta Meymoa adonde chamam o Porto da Capinha.

  4. Pela pouca agoa nem tem embarcaçam alguma.

  5. Quando só he em alguma trovoada he que tem o seu curso arrebatado.

  6. Corre de nascente a poente.

  7. Cria peyxes, e os mais sam bogas, barbos e algumas trutas.

  8. De Veram, antes que sequem as suas agoas, algumas pescarias se fazem, porem nam he cousa em que se chegue a tirar duas arrobas de peyxes.

  9. Todas as pescarias sam livres, e em toda a ribeyra nam há cousa coutada, mas tudo livre.

  10. Cultivam-se as suas margens, e os arvoredos que tem sam amieiros, salgueiros, freyxos, e por algumas partes poucas, pereyras, macieyras e olivaeyras.

  11. Nam tem virtude particular as suas agoas.

  12. Sempre conserva o mesmo nome em todas as partes, e nam há memoria tivesse outro nome em parte alguma.

  13. Morre no ryo chamado Zezere e nele entra no sitio chamado a Quinta do Ortigal, logo por baxo do lugar de Alcaria.

  14. Nam tem cachoeira, repreza, levada, mas sim alguns açudes.

  15. Tem huma ponte de pedra de cantaria, mas de presente está derrubada no lugar de Meymoa; e no lugar de Escarigo tem hum pontam de pao. Tem mais tres pontes de cantaria de pedra: huma a que chamam a ponte da Capinha, no mesmo sitio da Capinha; outra a que chamam a ponte de Pero Viseu, no termo deste lugar; outra a que chamam a ponte nova do Fundam, no termo do lugar de Alcaria.

  16. Tem poucos moinhos e azenhas, e nemhum lagar de azeite, nem pizam, nem nora.

  17. Nem no presente tempo, nem no preterito há lembrança se tirara ouro em suas areas.

  18. Pouco se utelizam os povos das suas agoas, nem por terem pensam alguma, mas sim por poucas agoas e se nam poderem tirar de sua mãy, por correr sempre por plano.

  19. Tem sete legoas donde prensepia the donde finaliza; já dise, prensepya ao pe do lugar de Meymam, passa ao lugar da Meymoa, Bemquerença, lugar que fica ao pe da tal ribeira Meimoa, e dahi pasa ao lugar de Excarigo, ao lugar da Capinha, ao lugar de Pero Viseu, ao lugar de Alcaria, inda que de alguns deste lugar passa em distancia.

  20. Nam tem mais cousa alguma de que se possa fazer memoria.

 

Pero Viseu, Abril 5 de 1758
O Prior, Ignacio da Costa

 

(1) Subsistem, porém, na toponímia alguns indícios de mineração, tais como minas e ferrarias 


Ultima alteração: Abril, 2002